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Sapo Xulé está de volta ao Master System depois de mais de 30 anos

Mauro Junior 20 de agosto de 2026 9 minutes read

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Casamento Indesejado ganhará versão em cartucho para o clássico console da SEGA.

Quando penso na minha infância, algumas lembranças aparecem quase automaticamente. Meus pais cantando músicas como Marcha Soldado, A Dona Aranha e O Cravo Brigou com a Rosa, os desenhos animados na televisão, as brincadeiras e, claro, os videogames. No meio dessas memórias também está uma música impossível de esquecer para quem cresceu naquela época: “O Sapo não lava o pé”.

E foi justamente dessa música que nasceu um personagem que acabou entrando também na minha história com os videogames: Sapo Xulé.

Lembro muito bem de entrar na locadora e encontrar a fita de Sapo Xulé: O Mestre do Kung Fu, lançado pela TecToy em 1995 para Master System. Vi aquele personagem que já conhecia fora dos games estampado na caixa e não tive muita dúvida: aluguei na hora. E como me diverti com aquele jogo.

Talvez seja justamente por isso que até hoje gosto de revisitar games daquela época. Não é apenas para descobrir se eles continuam bons ou se a memória resolveu melhorar algumas coisas com o passar dos anos. Existe também aquela tentativa quase impossível de voltar, mesmo que por alguns minutos, para um tempo em que minhas grandes preocupações eram estudar, brincar, assistir desenho animado e jogar videogame.

Mais de 30 anos depois, o Sapo Xulé está prestes a me dar outra desculpa para ligar novamente o Master System.

Sapo Xulé e o Casamento Indesejado, lançado originalmente em 2025 para PC via Steam, está sendo convertido para o console de 8 bits da SEGA. E não estamos falando apenas de um jogo moderno com estética retrô: o título está sendo adaptado para rodar no hardware original e ganhará versão em cartucho para Master System.

É um retorno que fecha um círculo bastante interessante para um personagem que fez parte da infância de muita gente no Brasil.

Do boneco com chulé aos videogames

O Sapo Xulé surgiu inspirado pela popular cantiga infantil “O Sapo Não Lava o Pé” e fez sua primeira aparição pública em abril de 1993, no jornal infantil KidNews, distribuído gratuitamente em escolas de São Paulo.

O personagem foi criado pelo artista Paulo José da Silva, profissional com uma extensa trajetória na animação brasileira e que trabalhou nas primeiras animações da Turma da Mônica. Seu currículo ainda inclui trabalhos para produções internacionais e uma passagem pela Hanna-Barbera.

Mas foi nos anos 1990 que uma de suas criações ganhou os pés das crianças. Literalmente.

Poucos meses depois da estreia do personagem, o Sapo Xulé virou um boneco produzido em parceria com a TecToy. O brinquedo acompanhava um par de tênis para ajudar as crianças a aprenderem a amarrar os cadarços e trazia uma característica que dificilmente passaria pelo departamento de marketing de uma empresa sem provocar algumas reuniões hoje: o boneco tinha chulé de verdade.

Uma palmilha com uma fragrância bastante peculiar garantia que o nome Sapo Xulé não fosse apenas uma estratégia de marketing. Era praticamente uma experiência sensorial completa.

E funcionou.

O sucesso abriu caminho para quadrinhos, animação, produtos licenciados e, naturalmente, videogames. O personagem marcou presença no Master System com três jogos durante os anos 1990, período em que a TecToy teve papel fundamental para manter o console extremamente popular no Brasil.

Entre eles estava justamente Sapo Xulé: O Mestre do Kung Fu, lançado em 1995 e responsável pela minha lembrança da locadora.

Agora, décadas depois, o sapinho está voltando para casa.

Um casamento que o Sapo Xulé precisa impedir

Em Sapo Xulé e o Casamento Indesejado, o prefeito de Sapópolis, Sapo King, está preocupado com sua baixa popularidade. Autointitulado Rei, ele chega à conclusão de que aquilo que falta para conquistar definitivamente a população é uma primeira-dama.

Porque aparentemente melhorar a administração da cidade daria muito trabalho.

Para resolver seu problema eleitoral, Sapo King ordena que a cobra Sibila prepare uma poção do amor. O plano seria relativamente simples se a escolhida para ocupar o posto não fosse justamente Sapita, considerada a sapinha mais perfumada e bonita da cidade e, principalmente, namorada do Sapo Xulé.

Ao descobrir o plano, Xulé parte para resgatar Sapita antes que o casamento aconteça. No caminho, nosso herói terá que enfrentar a Guarda Real, o Sindicato dos Capangas e outros obstáculos colocados pelo prefeito para garantir que ninguém atrapalhe seus planos matrimoniais.

A aventura segue a estrutura de um jogo de plataforma 2D, recuperando personagens e elementos das diferentes mídias pelas quais Sapo Xulé passou ao longo de sua história.

Os gráficos em pixel art foram desenvolvidos a partir das artes feitas à mão pelo próprio Paulo José, enquanto a trilha sonora utiliza adaptações das composições originais de Leandro e Nelton Matioli.

É uma preocupação interessante porque o objetivo não parece ser simplesmente pegar um personagem brasileiro antigo e colocá-lo dentro de um jogo com pixels para despertar nostalgia. Existe um esforço para preservar visualmente aquilo que fez Sapo Xulé ser reconhecível para quem cresceu com ele.

Do PC para um Master System de verdade

Sapo Xulé e o Casamento Indesejado foi lançado originalmente em 2025 para PC, via Steam, como parte das comemorações dos 30 anos da trajetória do personagem nos videogames.

Agora, a Squash Studios trabalha ao lado da Retro Juice Games e Blue Gorilla para fazer o caminho inverso ao habitual: em vez de pegar um jogo antigo e levá-lo para plataformas modernas, as equipes estão convertendo um jogo atual para um videogame lançado originalmente nos anos 1980.

E aqui está provavelmente a parte que mais chama minha atenção nesse projeto.

Sapo Xulé e o Casamento Indesejado será lançado em cartucho para o Master System.

Não é apenas uma homenagem visual aos 8 bits. A proposta é colocar o cartucho no console original, pegar o controle e jogar uma aventura inédita do Sapo Xulé em 2026 como fazíamos décadas atrás.

Para um personagem cuja história nos videogames está diretamente ligada ao console da SEGA no Brasil, dificilmente existiria plataforma mais apropriada para esse retorno.

Também existe algo especialmente interessante em ver um novo jogo brasileiro sendo desenvolvido para Master System tantos anos depois do fim comercial da geração. O console continua vivo não apenas através dos jogos que preservamos, colecionamos ou revisitamos, mas também por desenvolvedores que continuam aprendendo suas limitações e criando coisas novas para aquele hardware.

Squash Studios resgatou o personagem nos games

Fundada em 2019, no Rio Grande do Sul, por Johnny Vila e Eduardo Martins, a Squash Studios começou sua trajetória com jogos experimentais e trabalhos gráficos e editoriais realizados em parceria com a WarpZone.

O estúdio foi responsável por trazer Sapo Xulé novamente aos videogames em 2025 com Sapo Xulé e o Casamento Indesejado, desenvolvido em parceria direta com Paulo José, criador e detentor dos direitos do personagem, além dos músicos Leandro e Nelton Matioli, responsáveis pela trilha sonora original.

Para a nova versão, o trabalho ganhou o apoio da Retro Juice Games e Blue Gorilla, responsáveis junto à Squash pelo processo de levar a aventura para o hardware do Master System.

É quase uma inversão daquilo que vimos tantas vezes na história dos videogames. Durante décadas, desenvolvedores trabalharam para transportar jogos de consoles antigos para máquinas cada vez mais poderosas. Aqui, o desafio é justamente fazer um jogo criado no presente caber dentro das possibilidades de uma plataforma de 8 bits.

O homem por trás do Sapo Xulé

Também é difícil falar desse retorno sem voltar à história de Paulo José, já que sua carreira atravessa uma parte importante da animação brasileira.

O diretor e animador começou trabalhando com o francês Guy Lebrun e participou da montagem do estúdio de animação de Mauricio de Sousa, onde animou e dirigiu os primeiros curtas e longas-metragens da Turma da Mônica.

Depois de trabalhar em um comercial com personagens de Os Flintstones, foi convidado por Art Scott, então vice-presidente da Hanna-Barbera, para trabalhar nos estúdios da companhia em Burbank, na Califórnia. Posteriormente, fundou com o animador holandês-americano Hack Fick a THALIA Filmes, que produziu animações para estúdios norte-americanos, incluindo episódios de The Snorks, da Hanna-Barbera, e Little Clowns of Happy Town, para a Marvel Comics.

Nos anos 1990 viria o Sapo Xulé, que ultrapassou rapidamente sua origem como personagem infantil e chegou aos brinquedos, quadrinhos, videogames e televisão.

A série animada do personagem também passou por festivais e premiações, incluindo participação no Anima Mundi 2009 e reconhecimento no Prix Jeunesse 2009. Décadas depois da criação do personagem, Paulo José voltou a trabalhar diretamente com ele nos videogames como artista e animador de Sapo Xulé e o Casamento Indesejado.

E sua parceria com a Squash Studios não deve terminar por aqui: os dois lados também trabalham em outros projetos ainda não anunciados.

Tem coisa que um cartucho consegue trazer de volta

Tenho plena consciência de que colocar Sapo Xulé e o Casamento Indesejado no meu Master System hoje não vai me transportar magicamente para aquela locadora dos anos 1990.

Infelizmente, ainda não inventaram esse acessório.

Mas existe algo muito legal em pensar que um personagem que conheci quando era criança, que encontrei em uma fita na locadora e que ficou guardado junto de tantas outras lembranças daquela época vai ganhar uma aventura nova exatamente no mesmo videogame.

Décadas se passaram. A locadora desapareceu, os jogos deixaram de ser alugados para o fim de semana, os televisores de tubo praticamente sumiram e aquela criança agora tem preocupações um pouquinho maiores do que terminar a lição para poder jogar videogame.

O Master System, porém, ainda está aqui.

E o Sapo Xulé também.

About the Author

Mauro Junior

Administrator

Criador de conteúdo e gamer desde a época das locadoras. Fundador do Passa de Fase, falando de games retrô, indies e tudo que marcou gerações. Meu jogo da vida é Chrono Trigger e Celeste. Cresci entre cartuchos, revistas e controles gastos. Aqui no Passa de Fase, falo de videogame com opinião, memória afetiva e paixão de quem viveu cada fase.

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