Mario, Sonic, Street Fighter e outros games também marcaram nossa infância longe dos controles.
Quando lembro da minha infância e começo da adolescência, videogame e televisão quase sempre aparecem misturados nas mesmas lembranças. Era uma época em que minhas preocupações eram estudar, brincar, fazer coisas de criança, jogar videogame e ficar de olho na programação da TV para saber quando começaria aquele desenho que eu queria assistir.
Hoje parece até estranho explicar que existia um tempo em que você não simplesmente escolhia o desenho que queria ver. Não tinha streaming, catálogo, botão para voltar ao começo ou uma temporada inteira esperando para ser maratonada.
Tinha horário.
E se perdesse, perdeu.
Era acordar cedo, ligar a televisão e esperar a programação infantil começar. Xou da Xuxa, TV Colosso, Bom Dia & Companhia, Sábado Animado, Eliana & Alegria, TV Globinho… cada época teve seus programas, e muitos deles acabaram fazendo parte da nossa relação não apenas com os desenhos, mas também com os videogames.
Foi naquele período que personagens que eu conhecia dos controles começaram a aparecer também na televisão. Mario, Sonic, Mega Man, Ryu, Ken, Liu Kang, Billy e Jimmy Lee e tantos outros deixavam os pixels por alguns minutos para ganhar voz, personalidade e histórias que muitas vezes tinham uma relação bastante… digamos… criativa com os games.
E nós assistíamos mesmo assim.
Aliás, dependendo do desenho, talvez fosse justamente por isso que assistíamos.
Super Mario Bros. Super Show!
Para muita gente daquela geração, Mario na televisão não significa imediatamente o filme moderno da Illumination. Significa Lou Albano com um bigode gigantesco interpretando Mario em carne e osso.
The Super Mario Bros. Super Show! estreou originalmente em 1989 e tinha uma estrutura bastante peculiar. Cada episódio misturava segmentos live-action, estrelados pelo lutador profissional Lou Albano como Mario e Danny Wells como Luigi, com aventuras em animação inspiradas principalmente nos primeiros jogos da série.
No Brasil, o programa apareceu no início dos anos 1990 na Rede Globo, inclusive dentro do Xou da Xuxa.
Nos segmentos com atores, Mario e Luigi eram encanadores do Brooklyn que recebiam diferentes visitantes e se metiam em situações bastante absurdas. Depois entrava a animação, levando os irmãos para aventuras pelo Reino dos Cogumelos ao lado da Princesa Toadstool e Toad.
Bowser ainda era chamado principalmente de Rei Koopa, e aquela definitivamente não era uma época em que alguém parecia perder o sono discutindo nas redes sociais se uma adaptação estava respeitando perfeitamente o cânone dos videogames.
Mas havia outro motivo para acompanhar o programa.
Às sextas-feiras, Mario dava espaço para The Legend of Zelda, animação protagonizada por Link e Zelda que fazia parte do próprio Super Mario Bros. Super Show!.
E aquele Link falava.
Falava bastante.
Para quem está acostumado com as versões praticamente silenciosas do personagem nos games, encontrar aquele Link cheio de personalidade é uma experiência interessante até hoje.
Naquela época, porém, minha avaliação crítica era consideravelmente mais simples:
Tem Mario na televisão? Então aumenta o volume.
Capitão N: O Mestre dos Jogos
Se hoje estamos acostumados com universos compartilhados e crossovers gigantescos, Capitão N: O Mestre dos Jogos já estava fazendo sua própria bagunça no final dos anos 1980.
A animação estreou originalmente em 1989 e acompanhava Kevin Keene, um adolescente que era transportado junto com seu cachorro Duke para Videoland através da própria televisão.
Kevin carregava um controle e uma pistola inspirados nos acessórios do NES e acabava se transformando no Capitão N, herói responsável por defender aquele universo.
Mas o mais divertido estava no restante do elenco.
Mega Man, Kid Icarus e Simon Belmont, de Castlevania, conviviam na mesma equipe. Mother Brain era uma das principais vilãs, Dr. Wily também aparecia e diferentes mundos eram inspirados em jogos conhecidos da Nintendo.
No Brasil, Capitão N passou pela Rede Globo, inclusive dentro do Xou da Xuxa, e provavelmente apresentou alguns daqueles personagens para crianças que sequer tinham jogado seus respectivos games.
Só que as versões televisivas eram… diferentes.
Simon Belmont, o sujeito que deveria carregar nas costas a responsabilidade de enfrentar Drácula, virou um personagem extremamente vaidoso e convencido. Mega Man ganhou uma aparência bastante diferente daquela dos jogos. Mother Brain parecia ter aproveitado a mudança para a televisão para desenvolver uma personalidade muito mais extravagante.
Era como se alguém tivesse aberto uma caixa cheia de personagens de videogame, colocado todos juntos e começado a brincar sem perguntar muito de onde cada um veio.
E funcionava.
Pac-Man, ou melhor, Comilão
Muito antes de Mario e Sonic dominarem a televisão, Pac-Man já tinha descoberto que videogame também podia virar desenho animado.
Produzida pela Hanna-Barbera, a série estreou nos Estados Unidos em 1982, apenas dois anos depois do arcade da Namco, tornando-se uma das primeiras grandes experiências de transformar diretamente um videogame em uma animação para televisão.
No Brasil, passou por diferentes emissoras, incluindo Bandeirantes, Globo e SBT, e muita gente provavelmente se lembra do personagem por outro nome: Comilão.
Agora imagine a reunião dos roteiristas.
Temos um círculo amarelo que percorre um labirinto comendo pastilhas enquanto foge de fantasmas.
Precisamos transformar isso em desenho.
A solução foi simplesmente dar uma vida inteira ao Pac-Man.
Ele ganhou família, casa, cachorro, vizinhos e passou a viver em Pac-Land, enquanto continuava enfrentando os fantasmas e protegendo as famosas Power Pellets.
O mais curioso é que essa relação acabaria funcionando nos dois sentidos. Elementos apresentados na animação ajudaram posteriormente a influenciar o próprio universo dos videogames de Pac-Man.
O game virou desenho.
E o desenho ajudou a alimentar o game novamente.
Mega Man
Talvez nenhuma animação represente melhor a pergunta “e se transformássemos esse personagem japonês em um herói americano dos anos 90?” do que Mega Man.
A série animada estreou em 1994 e teve duas temporadas, sendo exibida no Brasil principalmente pelo SBT, inclusive dentro do Sábado Animado.
Boa parte dos elementos conhecidos estava lá: Mega Man, Roll, Dr. Light, Rush, Proto Man, Dr. Wily e diversos Robot Masters retirados diretamente dos jogos da Capcom.
Só havia um pequeno detalhe.
Mega Man aparentemente tinha começado a frequentar a academia.
Esqueça por alguns minutos aquele robozinho pequeno e simpático das artes clássicas dos games. A animação apresentou um Mega Man muito mais alto e musculoso, preparado para impedir os planos de Dr. Wily e provavelmente encaixar um treino de peito e tríceps logo depois.
Apesar das liberdades visuais, a série aproveitava bastante coisa dos jogos. Mega Man continuava podendo absorver habilidades de inimigos derrotados e diversos Robot Masters apareciam ao longo dos episódios.
Até elementos relacionados a Mega Man X chegaram a aparecer, e uma animação própria baseada naquela fase da franquia chegou a ser considerada, embora nunca tenha seguido adiante.
Hoje o visual pode parecer estranho.
Na infância?
Era Mega Man dando tiro no desenho animado.
Estava ótimo.
Double Dragon
Se existe uma franquia que parecia perfeita para ganhar um desenho animado nos anos 1990, era Double Dragon.
Billy e Jimmy Lee já passavam os games inteiros distribuindo socos, chutes e voadoras em praticamente qualquer pessoa que aparecesse pela frente. Era só colocar uma abertura, alguns diálogos e pronto.
Bom… não foi exatamente isso que fizeram.
A animação de Double Dragon estreou originalmente em 1993 e teve duas temporadas, totalizando 26 episódios. No Brasil, foi exibida pela Rede Globo durante os anos 1990, com aquela dublagem da Herbert Richers que por si só já funciona como uma espécie de selo de nostalgia para quem cresceu naquela época.
A história mantinha Billy e Jimmy Lee como protagonistas, mas transformava consideravelmente a mitologia dos jogos.
Billy havia sido criado pelo sábio Oldest Dragon, enquanto Jimmy cresceu sob a influência do misterioso Shadow Master. Quando os irmãos finalmente se reencontram, acabam seguindo caminhos opostos antes de assumirem juntos a responsabilidade de proteger Metro City.
E esqueça por alguns minutos aquela ideia relativamente simples dos arcades de dois irmãos atravessando as ruas na pancadaria.
O desenho resolveu aumentar consideravelmente a escala da coisa.
Billy e Jimmy se tornavam Double Dragons, guerreiros com armaduras e poderes especiais, enquanto enfrentavam Shadow Warriors e diferentes ameaças. O universo ganhou elementos de fantasia, magia, transformações e armas especiais que estavam muito além da proposta original dos primeiros games.
Era muito anos 90.
E isso não é necessariamente uma crítica.
A animação acabou fazendo algo parecido com várias adaptações daquele período: pegou os elementos básicos de um videogame conhecido e construiu praticamente uma nova mitologia em cima deles.
Curiosamente, essa relação também acabaria voltando aos videogames.
Em 1995, foi lançado Double Dragon V: The Shadow Falls, jogo de luta inspirado diretamente na animação. Em vez de simplesmente adaptar os beat ‘em ups clássicos, o título aproveitou personagens, visual e conceitos apresentados no desenho.
Ou seja, tivemos um videogame que virou desenho e depois um desenho que serviu de base para outro videogame.
Os anos 90 realmente eram maravilhosos.
Street Fighter II V
Aqui entramos em uma animação que, para muita gente no Brasil, deixou de ser simplesmente “um desenho baseado em videogame”.
Street Fighter II V virou um anime que a gente realmente acompanhava.
A produção japonesa estreou em 1995 e chegou à televisão brasileira pelo SBT em 1996, aproveitando uma época em que Street Fighter estava em praticamente todo lugar.
A série reinventava bastante a história dos games. Ryu e Ken eram mais jovens e partiam em uma viagem pelo mundo para desenvolver suas habilidades depois de descobrirem, da maneira mais dolorosa possível, que ainda tinham muito o que aprender.
Durante a jornada apareciam Chun-Li, Guile, Fei Long, Cammy, Dhalsim, Bison e vários outros personagens conhecidos dos videogames.
Só que agora existia tempo para desenvolver aquelas pessoas além das lutas.
Ryu e Ken tinham amizade, conflitos e jornadas próprias. Chun-Li participava diretamente das aventuras. Guile era tratado como um lutador absurdamente poderoso. Bison ganhou espaço suficiente para mostrar por que deveria ser levado a sério como vilão.
E tinha o Hadouken.
Meu amigo, aquele Hadouken.
Nos videogames bastava fazer meia-lua e apertar um botão.
No anime, parecia que Ryu precisava compreender os mistérios fundamentais da existência humana antes de conseguir soltar aquilo.
O treinamento demorava, havia concentração, energia, preparação…
Mas quando finalmente vinha o golpe, funcionava.
Para uma geração completamente mergulhada na febre de Street Fighter II, era difícil não parar para assistir.
Street Fighter: The Animated Series
E então tínhamos o outro Street Fighter.
Enquanto Street Fighter II V seguia pelo caminho do anime japonês, os Estados Unidos produziram sua própria série animada, exibida originalmente entre 1995 e 1997.
No Brasil, ela também apareceu no SBT durante os anos 1990.
Só que bastavam alguns minutos para perceber que estávamos diante de uma interpretação completamente diferente daquele universo.
Aqui, Guile assumia o papel de protagonista e líder de uma equipe de Street Fighters, reunindo personagens como Chun-Li, Ryu, Ken e Blanka para enfrentar Bison e diferentes ameaças.
A animação também carregava influências do filme live-action de Street Fighter estrelado por Jean-Claude Van Damme, criando aquela maravilhosa situação em que tínhamos um videogame que virou filme que ajudou a influenciar um desenho baseado no videogame.
Posteriormente, a série ainda incorporou personagens e elementos de Street Fighter Alpha, Final Fight e outros jogos da Capcom.
Na prática, tivemos duas animações de Street Fighter praticamente na mesma época e com interpretações completamente diferentes dos mesmos personagens.
Para uma criança diante da televisão, porém, havia um critério muito mais importante.
Tem Ryu?
Tem Ken?
Tem Chun-Li?
Tem Bison?
Então está valendo.
Mortal Kombat: Os Defensores da Terra
Se Street Fighter podia virar desenho para crianças, alguém inevitavelmente olharia para Mortal Kombat, franquia conhecida por arrancar cabeças, corações e colunas vertebrais, e teria exatamente a mesma ideia.
Assim nasceu Mortal Kombat: Defenders of the Realm, conhecido no Brasil como Mortal Kombat: Os Defensores da Terra.
A animação foi lançada em 1996 e teve apenas 13 episódios. Por aqui, ficou especialmente associada à Rede Record.
Obviamente, os Fatalities precisaram tirar férias.
A série reunia Liu Kang, Sonya Blade, Jax, Kitana, Sub-Zero, Stryker e Nightwolf, liderados por Raiden na defesa do Plano Terreno contra ameaças vindas de outras dimensões.
A produção utilizava elementos principalmente de Mortal Kombat 3 e também se conectava de maneira bastante livre aos acontecimentos do primeiro filme.
Era Mortal Kombat sem sangue.
Sem cabeças arrancadas.
Sem coração sendo puxado para fora do peito.
Sem “Finish Him!” seguido de alguma coisa que faria qualquer classificação indicativa entrar em desespero.
Mas tinha Scorpion, Sub-Zero, Liu Kang e Raiden aparecendo na televisão.
Para quem era fã dos jogos, isso já resolvia boa parte da equação.
Sonic tinha desenho para todos os gostos
Se existe um personagem que aproveitou a televisão sem qualquer moderação, foi Sonic.
Talvez seja justamente por isso que pessoas da mesma geração conseguem estar falando de desenhos completamente diferentes quando alguém simplesmente diz:
“Lembra do desenho do Sonic?”
Depende.
Qual deles?
Sonic, o Ouriço
Conhecido pelos fãs como Sonic SatAM, por ser exibido originalmente nas manhãs de sábado nos Estados Unidos, Sonic the Hedgehog estreou em 1993.
No Brasil, teve exibições no SBT entre o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, além de posteriormente aparecer na televisão paga.
Era uma interpretação surpreendentemente mais séria do universo do personagem.
Sonic fazia parte dos Freedom Fighters, grupo de resistência que enfrentava Dr. Robotnik em um mundo dominado por máquinas. A Princesa Sally Acorn era uma das figuras centrais da história, acompanhada por personagens criados especificamente para aquele universo televisivo.
Para quem conhecia Sonic principalmente correndo atrás das Esmeraldas do Caos no Mega Drive, aquilo era bastante diferente.
E justamente por isso conquistou tantos fãs.
Sonic Underground
Depois alguém decidiu que Sonic precisava de irmãos.
E que eles deveriam ser integrantes de uma banda.
Sonic Underground estreou em 1999 e apresentava Sonic, Sonia e Manic, três irmãos separados de sua mãe, a Rainha Aleena, depois que Robotnik tomou o controle de Mobius.
Os três precisavam se reunir, enfrentar o vilão e cumprir uma profecia.
Só que havia um detalhe maravilhoso.
Os irmãos formavam uma banda musical, e seus medalhões podiam se transformar em instrumentos que também funcionavam como armas.
Sim.
Sonic teve uma banda com os irmãos.
E sim.
Existiam números musicais.
No Brasil, a animação passou pelo SBT no começo dos anos 2000, inclusive dentro do Bom Dia & Companhia.
É uma daquelas ideias que você descreve hoje e alguém pergunta se realmente aconteceu.
Aconteceu.
Sonic X
Para uma geração um pouco posterior, entretanto, o Sonic definitivo da televisão provavelmente foi o de Sonic X.
O anime estreou no Japão em 2003 e chegou ao Brasil primeiro pela televisão paga, no Jetix em 2004, antes de ganhar enorme exposição na Rede Globo, dentro da TV Globinho, a partir de 2007.
A história começa quando um confronto contra Dr. Eggman acaba transportando Sonic e seus amigos para a Terra, onde eles conhecem Chris Thorndyke.
Diferentemente de algumas animações anteriores, Sonic X aproveitou muito mais diretamente personagens, histórias e conceitos dos videogames.
Tails, Knuckles, Amy, Cream, Rouge, Shadow e Eggman estavam presentes, e a série chegou a adaptar elementos das histórias de Sonic Adventure e Sonic Adventure 2.
Para quem havia acompanhado Sonic desde os tempos do Mega Drive, era interessante ver o personagem atravessando mais uma geração.
Para quem estava chegando naquele universo naquele momento, Sonic X provavelmente foi a porta de entrada.
Pokémon mudou o tamanho dessa história
E então chegou Pokémon.
Aqui a conversa muda um pouco porque Pokémon não foi simplesmente mais um desenho baseado em videogame exibido na televisão.
Virou um fenômeno.
No Brasil, o anime estreou em 10 de maio de 1999 na Rede Record, dentro do programa Eliana & Alegria. Posteriormente, passou por outras emissoras, incluindo Rede Globo e RedeTV!.
Para muita gente aconteceu algo curioso: conhecemos Pokémon primeiro pelo desenho e somente depois descobrimos que toda aquela febre havia começado nos videogames.
Ash, Pikachu, Misty, Brock e a Equipe Rocket rapidamente passaram a fazer parte do cotidiano das crianças.
Vieram cards, brinquedos, revistas, álbuns, roupas e praticamente qualquer objeto onde fosse possível colocar a imagem de Pikachu.
A animação conseguiu fazer algo que os primeiros jogos de Game Boy, com suas telas monocromáticas, naturalmente tinham limitações para entregar: deu voz, personalidade e comportamento àquelas criaturas.
Pikachu deixou de ser simplesmente uma das espécies disponíveis no jogo para virar um dos personagens mais reconhecidos do planeta.
Charizard ganhou personalidade.
Meowth falava.
Jigglypuff ficava revoltado porque todo mundo dormia durante suas apresentações.
E a Equipe Rocket provavelmente fracassou mais vezes tentando capturar um Pikachu do que qualquer vilão deveria ser capaz de suportar emocionalmente.
Para quem acompanhou aquela explosão no Brasil, é praticamente impossível separar Pokémon da experiência de chegar da escola e ligar a televisão.
A televisão era nosso segundo videogame
Olhando para essas animações hoje, é fácil encontrar problemas.
Algumas envelheceram melhor do que outras. Algumas respeitavam bastante os videogames. Outras parecem ter sido produzidas depois que alguém recebeu uma folha contendo os nomes dos personagens e ouviu:
“Faz alguma coisa com isso aí.”
Mas pouco importava naquela época.
Ver um personagem de videogame na televisão tinha outro peso.
Não existiam trailers aparecendo diariamente no celular. Não havia canais oficiais publicando vídeos o tempo inteiro, redes sociais mostrando cada novidade ou centenas de horas de gameplay esperando por um clique.
Quando Mario, Mega Man, Sonic, Ryu, Ken, Billy Lee, Jimmy Lee, Liu Kang ou Pikachu apareciam na programação infantil, parecia que aquele universo que existia dentro do videogame tinha escapado do cartucho e invadido a televisão.
E havia um ritual nisso tudo que praticamente desapareceu.
Você precisava saber o horário.
Precisava estar em casa.
Às vezes precisava disputar a televisão com alguém.
Podia ligar atrasado e pegar o episódio pela metade.
Podia esperar durante o programa inteiro e descobrir que naquele dia seu desenho favorito simplesmente não seria exibido.
E não tinha como abrir o aplicativo e assistir depois.
Não estou dizendo que era melhor. Streaming é infinitamente mais prático.
Mas era diferente.
Talvez parte da nostalgia que sinto por esses desenhos nem esteja somente neles. Está também naquele momento da vida em que minhas preocupações eram estudar, brincar, jogar videogame e descobrir o que passaria na televisão naquela manhã ou naquela tarde.
Eu não fazia ideia se aquelas adaptações eram fiéis aos jogos.
Não sabia quem era o estúdio responsável.
Não acompanhava números de audiência.
Não sabia se os fãs estavam reclamando.
Eu só queria que começasse logo.
E, pensando hoje, essa era uma preocupação muito boa de se ter.
