Experimentei a demo do jogo da Cat Crate Games e encontrei uma aventura de ficção científica que mistura sobrevivência, exploração e a missão nada modesta de reconstruir a civilização humana.
Se um dia a humanidade realmente precisar abandonar a Terra, espero sinceramente que a gente tenha aprendido a resolver nossos problemas antes de embarcar para outro planeta. Porque imagine a situação: você aceita participar de uma missão histórica, viaja até um mundo desconhecido para ajudar a construir um novo lar e, quando chega lá, descobre que a Terra entrou em guerra e os suprimentos não vão mais chegar. Agora é com você! Pelo visto, conseguimos dominar as viagens espaciais, mas ainda temos algumas pendências aqui embaixo.
Foi com essa premissa que comecei a jogar a demo de Alia Domus, RPG de sobrevivência em pixel art desenvolvido pelo estúdio brasileiro Cat Crate Games. E confesso que uma das primeiras coisas que passaram pela minha cabeça foi Perdido em Marte, de Andy Weir. Não apenas pela ideia de estar isolado em outro planeta, mas por aquela sensação de acompanhar alguém que precisa transformar conhecimento e improvisação em ferramentas de sobrevivência. Sabe quando Mark Watney se depara com um problema aparentemente impossível e precisa encontrar uma solução usando o pouco que tem à disposição? Foi justamente esse espírito que a proposta de Alia Domus despertou em mim.
A diferença é que, enquanto o protagonista de Perdido em Marte tenta encontrar uma maneira de voltar para casa, em Alia Domus a missão é praticamente o contrário: fazer de um planeta desconhecido a nova casa da humanidade. E não estamos falando apenas de construir um abrigo, plantar algumas coisas e esperar pelo resgate. A proposta é recuperar, passo a passo, milhares de anos de conhecimento humano, começando com ferramentas rudimentares e avançando até tecnologias que seriam impensáveis para nossos antepassados. Como gosto bastante de jogos de sobrevivência, essa combinação de ficção científica com evolução tecnológica foi suficiente para despertar minha curiosidade.
A Terra ficou para trás, mas os problemas vieram junto
A história de Alia Domus começa em um futuro no qual a Terra está exaurida e mergulhada em conflitos. A colonização de outros planetas surge como uma alternativa para a continuidade da humanidade, e o protagonista faz parte dos primeiros voluntários enviados para preparar esse novo lar. A missão deveria contar com suprimentos e apoio da Metrópole, mas a guerra interrompe a comunicação e o abastecimento, deixando o personagem isolado, sem equipamentos e cercado por um ambiente que ele mal conhece.
É uma premissa que funciona muito bem porque não depende de uma ameaça alienígena gigantesca para criar tensão. O problema inicial foi causado pela própria humanidade. Conseguimos desenvolver tecnologia suficiente para viajar entre planetas, mas continuamos incapazes de impedir que nossos conflitos comprometam o futuro que estamos tentando construir. Existe uma ironia interessante nisso, principalmente em uma época em que discutimos exploração espacial, esgotamento de recursos naturais e os limites do desenvolvimento tecnológico.
E é justamente nesse cenário que Alia Domus apresenta seu principal desafio. O jogador precisa explorar o ambiente, identificar recursos, fabricar ferramentas e desenvolver tecnologias para transformar aquele planeta em um lugar habitável. O conhecimento assume um papel central na aventura, porque sobreviver não significa apenas encontrar comida ou derrotar criaturas. Também envolve compreender o mundo ao redor e descobrir como utilizar aquilo que ele oferece.
Essa abordagem foi uma das coisas que mais me atraíram na proposta. Gosto quando um jogo de sobrevivência consegue dar sentido à coleta de recursos e à fabricação de equipamentos, fazendo com que cada descoberta represente um avanço real. Em Alia Domus, essa evolução está diretamente ligada à reconstrução do progresso humano.
Da pedra lascada ao laser: nove eras para reconstruir a civilização

Imagine começar uma aventura tendo que produzir suas primeiras ferramentas de pedra e, depois de muito trabalho, alcançar tecnologias avançadas e armamentos a laser. Essa é uma das grandes propostas de Alia Domus, que organiza sua progressão tecnológica em nove eras históricas: Paleolítico, Neolítico, Idade do Bronze, Idade do Ferro, Alta Idade Média, Baixa Idade Média, Idade Moderna, Era Industrial e Era Digital.
O sistema funciona a partir da coleta de materiais e da pesquisa de novas tecnologias. Conforme o jogador domina os conhecimentos de determinado período, novas possibilidades de fabricação e desenvolvimento são desbloqueadas, permitindo avançar para a era seguinte. Na prática, a ideia é transformar a evolução tecnológica no principal fio condutor da jornada, criando objetivos que vão além da sobrevivência imediata.
Essa proposta me fez lembrar da satisfação de acompanhar o avanço das civilizações em jogos como Civilization e Age of Empires, embora Alia Domus siga um caminho completamente diferente em termos de jogabilidade. Aqui não comandamos exércitos ou administramos uma nação inteira. Somos um único sobrevivente tentando recuperar conhecimentos que a humanidade levou séculos para desenvolver. É como se toda aquela árvore tecnológica dos jogos de estratégia tivesse se transformado em uma responsabilidade pessoal.
E existe algo muito interessante nessa inversão. Estamos acostumados a utilizar tecnologias sem pensar em quantas descobertas foram necessárias para que elas existissem. Em Alia Domus, a proposta é percorrer esse caminho novamente, descobrindo como um avanço possibilita o seguinte. Claro que isso também significa coletar muitos recursos, pesquisar bastante e provavelmente descobrir que falta algum material justamente quando estamos prestes a fabricar aquele equipamento tão esperado. Quem gosta de jogos de sobrevivência conhece bem essa situação.
A demo apresenta uma amostra da experiência, enquanto a progressão completa pelas nove eras faz parte da proposta anunciada pela Cat Crate Games. É um dos sistemas que mais tenho curiosidade de acompanhar quando o jogo estiver finalizado, principalmente para descobrir como o estúdio vai equilibrar o ritmo de evolução sem transformar a reconstrução da humanidade em uma sequência interminável de tarefas repetitivas.
Um planeta desconhecido que promete muito mais do que belas paisagens
Alia Domus utiliza uma perspectiva isométrica em pixel art, com uma direção visual que combina bastante com a exploração de ambientes naturais. A proposta é apresentar um planeta com diferentes biomas, condições climáticas, cavernas e regiões que oferecem tanto oportunidades de descoberta quanto perigos para o protagonista.
De acordo com as informações divulgadas pela Cat Crate Games, o projeto prevê mais de 140 tipos de plantas, 126 criaturas e um mundo composto por 85 mapas ou cenários possíveis. São números que chamam atenção, especialmente para um RPG independente, mas que precisam ser entendidos como características anunciadas para o jogo, e não como algo que eu tenha explorado por completo durante a demo.
A diversidade de plantas está relacionada à coleta de recursos e ao sistema de agricultura, que permitirá cultivar diferentes espécies para garantir alimentos e materiais necessários à progressão. Já as criaturas representam desafios de combate e também fontes de recursos para fabricação de equipamentos. Isso cria uma relação interessante entre exploração e sobrevivência: conhecer o ambiente não é apenas uma questão de curiosidade, mas uma necessidade para continuar evoluindo.
Outro recurso previsto é um sistema de navegação que combina minimapa local e mapa-múndi, com a possibilidade de adicionar marcadores personalizados. Pode parecer um detalhe secundário, mas quem já passou horas explorando um jogo de sobrevivência sabe como é importante conseguir identificar onde encontrou determinado recurso, uma caverna interessante ou uma região que ainda não tinha condições de enfrentar.
O que mais me agrada nessa proposta é a possibilidade de que a exploração tenha um propósito constante. Não se trata apenas de descobrir novos cenários, mas de encontrar materiais, compreender os perigos e desenvolver condições para alcançar lugares que antes pareciam inacessíveis. Se todos esses sistemas funcionarem bem juntos, Alia Domus poderá oferecer aquela sensação de progresso que faz a gente perder a noção do tempo.
Sobreviver é importante, mas evoluir também faz parte da aventura
Além dos elementos de sobrevivência, Alia Domus incorpora mecânicas tradicionais de RPG. As atividades realizadas durante a jornada geram experiência, permitindo desenvolver cinco atributos principais: Força, Agilidade, Destreza, Inteligência e Vitalidade. A distribuição desses pontos influencia as características do personagem e abre possibilidades para diferentes estilos de jogo.
A aventura também terá missões relacionadas às orientações iniciais da Metrópole e aos personagens encontrados pelo caminho. Entretanto, a proposta é oferecer liberdade para que o jogador decida quando deseja cumprir essas tarefas, explorar novas regiões ou simplesmente dedicar algum tempo ao desenvolvimento do personagem.
Esse tipo de liberdade é algo que valorizo bastante. Em jogos de sobrevivência, nem sempre quero seguir diretamente para o próximo objetivo. Às vezes, prefiro explorar uma região desconhecida, reunir materiais para melhorar meus equipamentos ou descobrir o que existe além de determinado caminho. E, quando o jogo consegue recompensar essas escolhas, a exploração deixa de parecer uma distração e passa a fazer parte da própria aventura.
A Cat Crate Games também destaca a trilha sonora como um elemento importante da ambientação, acompanhando os momentos de descoberta, combate e construção. Considerando a proposta de atravessar diferentes estágios tecnológicos enquanto exploramos um planeta desconhecido, a música poderá ajudar a reforçar a sensação de que estamos participando de uma jornada muito maior do que a sobrevivência de um único personagem.
Primeiras impressões: Alia Domus me deixou com vontade de continuar
Depois de experimentar a demo, fiquei com uma impressão bastante positiva de Alia Domus. O jogo reúne características de que gosto muito, como exploração, coleta de recursos, desenvolvimento do personagem e evolução tecnológica. Mas, para mim, o que realmente diferencia a proposta é o contexto em que tudo isso acontece.
A sensação de estar diante de uma aventura de ficção científica, na qual o conhecimento se torna essencial para sobreviver, foi o que despertou minha associação com as histórias de Andy Weir. E acho importante destacar que essa é uma impressão pessoal da experiência, não uma afirmação de que o jogo tenha sido inspirado diretamente em Perdido em Marte. O que encontrei foi uma premissa que me fez lembrar daquele prazer de acompanhar personagens tentando superar situações extremas com inteligência, persistência e improvisação.
Também gostei da ambição do projeto. Reconstruir a civilização humana passando por nove eras tecnológicas é uma ideia que oferece muitas possibilidades, principalmente quando combinada com exploração, agricultura, combate e elementos de RPG. Ao mesmo tempo, ainda quero descobrir como esses sistemas vão se conectar durante uma campanha completa. Uma demo consegue despertar interesse, mas não permite avaliar toda a profundidade de um jogo com tantas funcionalidades planejadas.
E talvez esse seja o melhor resumo da minha experiência: terminei a demo querendo descobrir o que vem depois. Quero explorar mais daquele planeta, conhecer suas criaturas e, principalmente, acompanhar a evolução tecnológica até alcançar as eras mais avançadas. Para alguém que gosta do gênero, é uma expectativa bastante animadora.
Alia Domus tem lançamento previsto para fevereiro de 2027, e a demo já está disponível na Steam. O projeto da Cat Crate Games merece atenção, especialmente de quem acompanha a produção independente brasileira e gosta de aventuras que combinam sobrevivência com uma boa premissa de ficção científica.
Agora, se a humanidade realmente conseguir encontrar outro planeta habitável, espero que alguém tenha a boa ideia de resolver os conflitos aqui na Terra antes da viagem. Porque chegar a outro mundo e precisar reinventar tudo, da pedra lascada ao computador, parece uma responsabilidade grande demais para colocar no currículo de um único colono.
E você, gosta de jogos de sobrevivência que permitem evoluir do básico até tecnologias avançadas? Já experimentou a demo de Alia Domus?






Olá, Mauro!
Aqui é o Gabriel, o desenvolvedor da CCG por trás desse projeto.
Quero primeiramente agradecer pelo aceite de cobrir o jogo, mas, além de tudo, destacar como sua redação e análise são impecáveis. Adorei cada segundo lendo seus pensamentos sobre o jogo.
Sucesso sempre!