Salvador é conhecida por sua história, arquitetura, cultura e alguns dos cartões-postais mais famosos do Brasil. Mas existe um lugar da cidade que dificilmente alguém escolheria para explorar: seus esgotos. É justamente nesse cenário improvável que o estúdio brasileiro Team Zeroth decidiu ambientar Plungeez, publicado pela QUByte Interactive.
Lançado em 13 de agosto, Plungeez está disponível para Nintendo Switch, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S e PC. O game mistura puzzles, plataforma e progressão inspirada nos metroidvanias, mas faz isso deixando de lado um elemento bastante comum no gênero: o combate.
Aqui, nada de espadas, armas ou hordas de inimigos. O principal desafio é entender como aquele enorme labirinto subterrâneo funciona.
Presa nos esgotos de Salvador
A protagonista da aventura é Bôni, uma jovem que acaba presa no subterrâneo da capital baiana e precisa encontrar uma maneira de escapar.
O ponto de partida é simples, mas funciona justamente porque Plungeez não perde muito tempo tentando justificar sua principal proposta. O jogador é colocado em um grande ambiente interligado e precisa explorar, observar e compreender como avançar.
A estrutura lembra bastante um metroidvania. Existem diferentes áreas conectadas, caminhos que inicialmente não podem ser acessados, passagens escondidas e segredos que recompensam quem decide investigar cada canto do cenário.
Só que a Team Zeroth modifica uma peça importante dessa fórmula. Em Plungeez, a progressão não gira em torno de ficar mais poderoso para enfrentar novos inimigos. Na verdade, não existem combates.
Isso muda bastante a dinâmica da aventura.
Quando o cenário é seu adversário
Sem inimigos para derrotar, o desafio está nos próprios ambientes e nos quebra-cabeças espalhados pelo subterrâneo.
Para avançar, é preciso entender como diferentes elementos do cenário funcionam, descobrir a ordem correta das ações e perceber possibilidades que muitas vezes não são imediatamente evidentes.
É uma abordagem interessante porque faz com que a exploração tenha um propósito diferente. Encontrar uma nova sala não significa necessariamente descobrir um novo inimigo ou equipamento. Pode significar encontrar uma peça importante para solucionar um problema visto anteriormente ou simplesmente enxergar uma situação por outro ângulo.
Essa estrutura faz com que Plungeez valorize bastante observação e raciocínio espacial. O jogador precisa prestar atenção ao ambiente, experimentar possibilidades e entender como as diferentes salas se relacionam.
A sensação de progressão continua presente, mas a recompensa vem principalmente daquele momento em que uma solução finalmente faz sentido e um caminho que parecia impossível se abre.
O poder de um desentupidor

Talvez a ideia que melhor represente o espírito de Plungeez esteja na principal ferramenta de Bôni.
Sim, estamos falando de desentupidores.
Nas mãos da protagonista, eles deixam de ser simples objetos domésticos e passam a fazer parte das principais mecânicas da aventura. Bôni pode utilizá-los para se prender às paredes, alcançar determinados pontos, interagir com elementos dos cenários e até reparar antigas tubulações.
Parece uma ideia absurda quando descrita dessa maneira, mas dentro da proposta funciona muito bem.
Mais do que uma piada visual, o desentupidor conversa diretamente com o ambiente no qual o jogo acontece. A Team Zeroth não escolheu os esgotos apenas como pano de fundo. O cenário influencia as ferramentas, os desafios e a própria identidade da aventura.
É justamente essa coerência entre conceito e mecânica que ajuda Plungeez a ganhar personalidade.
Um pouco de metroidvania, mas do seu próprio jeito
A influência dos metroidvanias aparece principalmente na maneira como o mundo está organizado.
O jogador não percorre simplesmente uma sequência de fases independentes. As áreas fazem parte de um mesmo grande espaço, incentivando retornos e novas tentativas conforme Bôni consegue avançar e compreender melhor as possibilidades oferecidas pelo cenário.
Isso cria aquela conhecida curiosidade de olhar para uma passagem e pensar: “como eu chego ali?”
A diferença é que a resposta nem sempre envolve conseguir uma nova habilidade ou derrotar algum chefe. Muitas vezes, é necessário entender melhor as regras daquele ambiente e encontrar uma solução para o quebra-cabeça.
Essa decisão também torna Plungeez interessante para quem gosta da sensação de descoberta dos metroidvanias, mas não necessariamente procura o foco em combate presente em boa parte dos representantes do gênero.
Salvador faz parte da identidade
Outro ponto que merece destaque é a ambientação.
Ver um jogo brasileiro utilizando Salvador, na Bahia, como parte de sua identidade já chama atenção, principalmente em um mercado no qual produções nacionais muitas vezes recorrem a cenários mais genéricos ou referências internacionais.
Plungeez segue por outro caminho.
Mesmo levando a aventura para o subterrâneo da cidade, a escolha de Salvador dá personalidade ao universo e reforça a origem brasileira do projeto.
A apresentação em pixel art também combina bem com a proposta. Os cenários coloridos ajudam a transformar um ambiente que poderia facilmente se tornar visualmente repetitivo em um labirinto com identidade própria.
Existe um contraste curioso nessa escolha. Estamos falando de esgotos, tubulações e ambientes subterrâneos, mas apresentados de maneira estilizada e convidativa.
É uma boa demonstração de como uma direção artística bem definida consegue transformar completamente a percepção de um cenário.
Uma aventura que prefere fazer você pensar
Talvez uma das principais qualidades de Plungeez seja saber exatamente qual experiência pretende oferecer.
Não existe a necessidade de incluir combate simplesmente porque outros jogos de exploração fazem isso. A Team Zeroth prefere concentrar seus esforços nos quebra-cabeças e na relação do jogador com o cenário.
Isso naturalmente significa que a experiência pode não agradar quem procura ação constante. O ritmo depende muito mais da disposição para explorar, experimentar e eventualmente ficar alguns minutos tentando compreender determinado desafio.
Por outro lado, para quem gosta de puzzles, essa característica é justamente um dos grandes atrativos.
Há uma satisfação diferente em perceber que você não venceu porque encontrou uma arma mais poderosa ou aumentou seus atributos, mas porque finalmente entendeu o problema que estava diante de você.
Veredicto
Plungeez pega elementos conhecidos dos jogos de puzzle, plataforma e metroidvania para construir uma aventura que consegue encontrar sua própria personalidade.
A ausência de combates é uma decisão importante nesse processo. Em vez de simplesmente reproduzir a estrutura tradicional do gênero, o jogo coloca exploração, lógica e observação no centro da experiência.
A utilização dos desentupidores como ferramentas vai além da brincadeira e conversa diretamente com as mecânicas, enquanto a ambientação nos esgotos de Salvador dá ao jogo uma identidade brasileira que merece ser valorizada.
Desenvolvido pela Team Zeroth e publicado pela QUByte Interactive, Plungeez mostra que nem toda aventura precisa de monstros, espadas ou grandes batalhas para oferecer desafios. Às vezes, um labirinto, alguns canos e um bom desentupidor já são suficientes.



