Quando o jogo virou desenho
Do Cartucho à TV: quando o jogo virou desenho é a coluna do Passa de Fase que revisita animações baseadas em videogames, analisando contexto histórico, curiosidades, adaptações criativas e o legado dessas obras que levaram os pixels para além do controle.
Se Pac-Man foi o momento em que alguém olhou para um videogame e pensou “isso aqui dá um desenho”, Saturday Supercade foi quando alguém respondeu:
“Ok… mas e se a gente fizer isso com todos ao mesmo tempo?”
E assim nasceu um dos projetos mais curiosos, caóticos e perfeitamente anos 80 da história das adaptações de games para a TV.
Os fliperamas mandavam no mundo

Em 1983 eu tinha apenas 3 anos e ainda nem sabia direito o que era um videogame, mas os fliperamas ainda eram reis. O Atari 2600 chegou na minha casa por causa do meu padrinho, mas os grandes ícones vinham mesmo dos arcades. Era ali que surgiam personagens reconhecíveis, mesmo sem falarem uma palavra.
Nesse cenário, a Coleco, que tinha licença de vários jogos de sucesso, teve uma ideia simples e genial:
reunir vários games famosos em um único programa de TV, exibido no horário mais nobre possível para crianças — sábado de manhã.
O que era Saturday Supercade?
Exibido a partir de 1983, Saturday Supercade não era um desenho tradicional. Era uma antologia animada, dividida em blocos, cada um baseado em um videogame diferente.
Não existia um protagonista fixo.
Não existia um universo compartilhado.
Existia apenas uma regra:
se fez sucesso no fliperama, pode virar desenho.
Mas… quais eram os games?




Aqui está a parte importante — e sem invenção.
Os principais jogos adaptados foram:
- Donkey Kong
- Q*bert
- Frogger
- Pitfall!
- Kangaroo
- Space Ace
Todos eles existiam antes do desenho e eram extremamente populares na época. O desenho não criou esses personagens — ele apenas resolveu dar voz, personalidade e, em alguns casos, problemas emocionais que definitivamente não estavam no cartucho.
Do pixel ao personagem falante
No fliperama, Donkey Kong subia andaimes e sequestrava Pauline.
No desenho? Ele falava, reclamava, se metia em confusão e tinha timing cômico.
Q*bert, que no jogo só pulava cubos fazendo sons estranhos, virou um personagem expressivo, tagarela e cheio de energia.
Pitfall Harry, que no Atari só corria, pulava e morria para jacarés, ganhou histórias completas de aventura.
A lógica era clara:
👉 o sprite servia como ponto de partida
👉 o resto era invenção total
E ninguém parecia se incomodar com isso.
Onde passou (e como a gente assistia)



Nos Estados Unidos, Saturday Supercade foi exibido pela CBS, aos sábados de manhã, dentro do bloco infantil tradicional da época. Foram duas temporadas, totalizando 97 episódios, exibidos entre 1983 e 1984.
No Brasil, a experiência foi bem diferente — e bem mais caótica. Eu lembro vagamente, pois era ainda um jovem Padawan dos games de assistir na Rede Globo, no programa Balão Mágico, em 1984. Mas os episódios do Space Ace foi exibido pela Rede Bandeirantes em 1987 pelo extinto programa ZYB Bom.
Você não sabia o nome do programa.
Você só reconhecia os personagens.
E isso já bastava.
Curiosidades que definem a série
- Saturday Supercade foi a primeira antologia animada baseada exclusivamente em videogames.
- Muitos personagens ganharam personalidade primeiro na TV e só depois na memória coletiva dos jogadores.
- O desenho ajudou a popularizar ainda mais Donkey Kong fora dos fliperamas.
- Não havia qualquer preocupação com continuidade ou fidelidade ao gameplay. A prioridade era entretenimento imediato.
Funcionava?
Como adaptação fiel de videogames? Não muito.
Como retrato da época? Perfeitamente.
Saturday Supercade não tentava explicar os jogos. Ele tentava capitalizar o reconhecimento. Você batia o olho, via Donkey Kong ou Q*bert e pensava:
“isso eu já vi em algum lugar”.
Missão cumprida.
O legado
Hoje, Saturday Supercade é lembrado mais como curiosidade histórica do que como clássico. Mas ele representa algo fundamental: o momento em que a TV percebeu que videogame não era moda passageira.
Era cultura.
Era personagem.
Era marca.
Mesmo que ninguém soubesse exatamente como adaptar isso direito.
Memória de jogador
Assistir a Saturday Supercade era perceber que aqueles jogos que você via (ou tentava jogar) no fliperama tinham escapado do gabinete e invadido a TV. Nem sempre fazia sentido. Mas dava vontade de jogar depois.
E, no fim das contas, essa sempre foi a melhor propaganda possível.
