Desenvolvido por programadores brasileiros, Zeebx já consegue executar boa parte da biblioteca do console da Tectoy e surge como uma alternativa para preservar seus jogos digitais.
O Zeebo pode não ter conquistado o mercado brasileiro, mas certamente conquistou um lugar entre as histórias mais curiosas dos videogames nacionais. Lançado pela Tectoy em 2009, o console apostou na distribuição exclusivamente digital quando baixar jogos diretamente no aparelho ainda estava longe de ser algo comum nos consoles de mesa.
Dezessete anos depois, o videogame que durou apenas dois anos no mercado ganhou uma nova oportunidade de continuar existindo. Programadores brasileiros desenvolveram o Zeebx, um emulador funcional que permite executar jogos do Zeebo em computadores e dispositivos Android.
Disponibilizado gratuitamente no GitHub, o projeto já apresenta resultados promissores: 56 dos 62 jogos testados conseguem passar da etapa de carregamento e apresentar imagens na tela. Isso não significa que todos funcionem perfeitamente, mas representa um avanço importante para a preservação da biblioteca do aparelho.
Um console digital que ficou preso ao passado

O Zeebo chegou ao Brasil em maio de 2009 como uma aposta da Tectoy em um mercado dominado por PlayStation, Xbox e Nintendo. Diferentemente dos concorrentes, não utilizava cartuchos nem discos. Seus jogos eram adquiridos e baixados por uma conexão 3G, diretamente para a memória do console.
A ideia parecia antecipar uma tendência que se tornaria cada vez mais comum na indústria. O problema é que o hardware limitado, o preço elevado e uma biblioteca relativamente pequena dificultaram sua popularização. O aparelho utilizava tecnologia de celulares da Qualcomm e chegou às lojas sem o desempenho gráfico inicialmente planejado.
Apesar das limitações, recebeu versões de jogos conhecidos, como Resident Evil 4: Zeebo Edition, Quake, Need for Speed Carbon e Crash Nitro Kart 3D. Eram adaptações desenvolvidas para funcionar dentro das possibilidades técnicas do aparelho, o que torna essas versões particularmente interessantes para quem acompanha a história dos videogames.
Quando o Zeebo foi descontinuado, em 2011, sua natureza exclusivamente digital se tornou um problema para a preservação. Com o encerramento da loja, os jogos deixaram de estar disponíveis para download, restringindo o acesso aos aparelhos que ainda conservavam os títulos instalados ou que passaram por modificações.
Como funciona o Zeebx?

O desenvolvimento do Zeebx apresenta um desafio diferente daquele encontrado na emulação de consoles tradicionais. Segundo os responsáveis, emular o Zeebo significa, essencialmente, reimplementar o Qualcomm BREW 4.0.2, plataforma utilizada em celulares e que servia como base para o sistema do aparelho.
Os jogos foram desenvolvidos como programas para processadores ARM e utilizavam interfaces do BREW para acessar os recursos necessários à execução. Em vez de reproduzir integralmente o hardware original, o Zeebx executa o código ARM em um ambiente emulado e interpreta as chamadas feitas pelos jogos ao sistema.
Escrito na linguagem Rust, o projeto utiliza Qt 6 em sua interface principal e oferece versões para Windows, macOS e Linux, além de um aplicativo para Android e um núcleo Libretro, permitindo sua utilização no RetroArch.
Entre os recursos disponíveis estão atualizações automáticas de versão, instalação pelo Homebrew em sistemas compatíveis e opções experimentais de resolução para jogos tridimensionais, que podem chegar a 4K no formato 16:9.
Outro detalhe interessante envolve o Boomerang, controle de movimento desenvolvido para o Zeebo. Os jogos que utilizavam o acessório podem aproveitar os sensores de um Wii Remote, da Nintendo, oferecendo uma alternativa para reproduzir essa experiência sem depender do controle original.
Preservação de uma parte da história dos games brasileiros

Embora a compatibilidade já seja significativa, o Zeebx continua em desenvolvimento. Alguns títulos ainda apresentam travamentos durante o carregamento ou a execução, e a equipe mantém um registro público para acompanhar o funcionamento de cada jogo.
O emulador também não acompanha jogos ou firmware do console. Sua distribuição inclui apenas a reimplementação necessária para executar os programas, sem disponibilizar os arquivos dos títulos comerciais.
O projeto se junta a outras iniciativas de preservação do Zeebo, como Infuse e Zebora, que procuram impedir que a biblioteca do aparelho desapareça junto com as últimas unidades em funcionamento.
Talvez o Zeebo não tenha alcançado o sucesso que a Tectoy esperava, mas sua história representa um momento singular da indústria brasileira: a tentativa de criar um console de mesa com distribuição totalmente digital, utilizando tecnologia de celulares e uma proposta diferente daquela dos fabricantes tradicionais.
Com o Zeebx, essa experiência ganha uma nova possibilidade de ser estudada, preservada e descoberta por quem nunca teve contato com o aparelho original.
E você, chegou a jogar no Zeebo ou conheceu o console apenas depois que ele saiu de linha?
