Entre os jogos que pude revisitar durante a Gamescom, poucos conseguiram me marcar tanto quanto Hell Clock. Mesmo tendo sido lançado oficialmente em 22 de julho de 2025, o game mostrou no evento que continua extremamente relevante e reforça algo que já venho dizendo há algum tempo: os games indies brasileiros vivem um dos seus melhores momentos.
Misturando elementos de Roguelike e ARPG, Hell Clock entrega uma experiência frenética baseada em loot, progressão constante e liberdade para criar builds extremamente variadas. Mas o que realmente faz o jogo se destacar vai muito além da gameplay. Sua maior força está na forma como consegue transformar um dos períodos mais marcantes da história do Brasil em algo envolvente, respeitoso e genuinamente interessante.
A proposta do jogo transporta os jogadores para uma versão de fantasia sombria da Guerra de Canudos, um dos capítulos mais dolorosos do século XIX brasileiro. O povoado de Canudos, que se tornou refúgio para milhares de pessoas no sertão, acabou enfrentando o recém-formado Exército Republicano em um conflito que terminou de forma brutal, deixando milhares de mortos.
Dentro desse contexto histórico reinterpretado, o jogador assume o papel de Pajéu, um guerreiro que conquistou sua liberdade em batalha e agora precisa resgatar a alma de Conselheiro, seu mentor espiritual e líder de Canudos. A jornada acontece em um ciclo constante de descidas por masmorras, onde o tempo parece reiniciar enquanto os perigos aumentam e forças amaldiçoadas tomam conta do caminho.
Logo nas primeiras horas de gameplay, uma das coisas que mais me chamou atenção foi como a jogabilidade funciona extremamente bem. O combate é fluido, responsivo e extremamente satisfatório. Existe aquele ciclo viciante típico dos melhores roguelikes, onde cada nova run parece trazer novas possibilidades, recompensas e estratégias diferentes.
A variedade de loot, habilidades e progressão roguelite permite experimentar estilos de jogo bastante distintos. Dependendo da build escolhida, o ritmo da experiência muda completamente, o que ajuda muito a manter o jogo interessante mesmo após várias tentativas.
Mas, honestamente, o lugar onde Hell Clock realmente brilha é na sua ambientação e narrativa.
É raro encontrar um jogo que consiga usar um evento histórico brasileiro de forma tão inteligente. A Guerra de Canudos não está ali apenas como pano de fundo visual ou desculpa narrativa. O jogo faz o jogador se interessar pelo tema, despertar curiosidade e entender melhor a importância daquele período.
A presença de figuras históricas e a maneira como os eventos reais são reinterpretados dentro de uma fantasia sombria ajudam a criar uma experiência única. Durante a gameplay, ficou impossível não sentir curiosidade de pesquisar mais sobre Canudos e tudo o que aconteceu naquele período.
Outro ponto que merece destaque é a dublagem em português brasileiro, que está excelente e dá ainda mais vida aos personagens e à ambientação. Existe um cuidado enorme na identidade do projeto, algo que torna tudo ainda mais imersivo.
Mas a Gamescom também mostrou que Hell Clock está longe de parar no tempo.
Além da boa recepção contínua do jogo, a equipe segue expandindo o conteúdo com a chegada da expansão “Guerra Maldita”, que promete ampliar significativamente o universo do game.
Entre os principais destaques está a chegada de um novo conteúdo de história, levando os jogadores para uma releitura sombria da Guerra do Paraguai, apresentada no Ato IV. A expansão adicionará ainda sete novas habilidades ativas, mais de 20 novas relíquias, além de novos monstros, chefes e regiões inéditas, incluindo uma versão de fantasia sombria do Paraguai.
Mas nem tudo ficará preso ao conteúdo pago. O jogo também receberá a gigantesca Atualização 2.0 gratuita, disponível para todos os jogadores.
Entre as novidades está o sistema de Pesadelos Sem Fim, um novo endgame onde o jogador monta sua própria masmorra ao longo da progressão, escolhendo fragmentos a cada sete andares e enfrentando até 16 níveis de dificuldade.
O update também introduz o Sistema de Jornadas, incentivando novos saves com mecânicas inéditas, desafios e recompensas exclusivas. A primeira delas, chamada Jornada dos Pesadelos, adicionará portais especiais espalhados pelo jogo e novas relíquias voltadas para builds ainda mais poderosas.
Além disso, a atualização incluirá novas áreas de endgame, um modo onde o jogador pode começar campanhas já com todas as habilidades desbloqueadas, impressionantes 63 novas relíquias únicas, melhorias na geração procedural das masmorras e a versão definitiva do modo Ascensão, que deixará o beta com progressão rebalanceada e novos sistemas.
A equipe também promete melhorias de performance, recursos de qualidade de vida, como o aguardado respec ponto a ponto, além de novas conquistas na Steam.
Saí da Gamescom com uma sensação muito clara: Hell Clock é um jogo que dá orgulho de ver sendo produzido no Brasil. Não apenas pela qualidade da gameplay ou pelo cuidado técnico, mas pela coragem de transformar parte da nossa própria história em algo envolvente, respeitoso e divertido.
Mais do que um ótimo roguelike, Hell Clock é um exemplo de como jogos brasileiros podem unir ação, identidade cultural e valor histórico sem perder personalidade.
Hell Clock já está disponível na Steam.
No fim, talvez o maior mérito do jogo seja justamente esse: conseguir divertir enquanto desperta curiosidade sobre um pedaço importante da história brasileira — algo raro de encontrar até mesmo em grandes produções internacionais.





