O lançamento do jogo brasileiro da Bolha Game Studio me fez revisitar uma conexão muito especial com Celeste e lembrar por que algumas experiências nos videogames conseguem transformar a maneira como enxergamos a vida.
Existem jogos que a gente termina, guarda na memória e segue em frente. Outros permanecem conosco por muito mais tempo, seja por uma música inesquecível, um personagem marcante ou uma história que nos emocionou. Mas existe uma categoria ainda mais especial: aqueles jogos que chegam em determinado momento da nossa vida e acabam mudando alguma coisa dentro de nós.
Para mim, Celeste é um desses jogos.
Não estou falando apenas de um dos melhores jogos de plataforma que já experimentei, embora ele certamente ocupe essa posição na minha lista. Estou falando de uma experiência que teve um significado muito maior. Celeste apareceu na minha vida em um momento importante e contribuiu para uma verdadeira mudança na maneira como eu enxergava a vida.
É curioso pensar que um jogo construído ao redor de saltos, escaladas e desafios de precisão possa provocar algo tão profundo. Mas quem conhece a jornada de Madeline sabe que aquela montanha nunca foi apenas uma montanha.
E talvez seja justamente por isso que fiquei tão encantado quando conheci Lyara, um jogo brasileiro desenvolvido pela Bolha Game Studio, que chega oficialmente ao PC nesta sexta-feira, 30 de outubro de 2026, pela Steam.
Desde o primeiro contato, algo nele despertou minha atenção. A proposta, o visual, a protagonista e, principalmente, a ideia de transformar desafios de plataforma em uma jornada de autoconhecimento me fizeram lembrar de uma sensação que eu conhecia muito bem.
Não porque Lyara seja uma cópia de Celeste. Muito pelo contrário. O que me conquistou foi perceber que outro jogo estava tentando utilizar a linguagem dos videogames para contar uma história sobre sentimentos, dificuldades e crescimento pessoal.
E, para quem encontrou tanto significado em Celeste, isso já é motivo suficiente para olhar com muito carinho para essa nova aventura.
Por que Celeste significa tanto para mim?
Quando penso em Celeste, a primeira coisa que me vem à cabeça não é sua dificuldade, seus gráficos em pixel art ou a precisão dos controles. É a maneira como aquele jogo conseguiu conversar comigo.
A jornada de Madeline até o topo da montanha é construída sobre desafios que parecem simples de compreender, mas que exigem persistência para serem superados. Você salta, erra, cai, tenta novamente e, aos poucos, aprende a reconhecer seus próprios limites.
Só que existe algo muito maior acontecendo por trás de cada fase.
Celeste aborda inseguranças, ansiedade, autoconhecimento e a dificuldade de conviver com partes de nós mesmos que nem sempre conseguimos compreender. E faz isso sem transformar esses sentimentos em uma explicação distante. O jogo coloca o jogador dentro desse processo.
Cada tentativa frustrada, cada obstáculo superado e cada pequeno avanço acabam ganhando um significado especial quando conectados à história de Madeline.
Para mim, essa experiência foi importante em uma virada pessoal. Ela me ajudou a olhar para a vida de outra maneira e reforçou algo que, às vezes, esquecemos no meio das nossas próprias dificuldades: avançar não significa necessariamente deixar de sentir medo ou insegurança. Muitas vezes, significa aprender a continuar apesar deles.
Talvez seja por isso que Celeste ocupe um espaço tão especial entre os meus jogos favoritos. Não é apenas uma lembrança de algo que joguei. É uma lembrança de algo que senti.
E encontrar outro jogo que desperte essa mesma curiosidade emocional é algo raro.
Lyara: uma pequena protagonista diante de um mundo desconhecido

Em Lyara, acompanhamos uma garotinha curiosa que acaba se perdendo em um ambiente desconhecido. Sem compreender completamente o que está acontecendo, ela precisa explorar esse novo universo, enfrentar obstáculos e encontrar respostas para os acontecimentos ao seu redor.
Mas a aventura não se resume a descobrir como voltar para casa ou alcançar o final de uma fase.
A protagonista também precisa lidar com seus próprios conflitos internos, traumas e sentimentos, transformando a jornada em uma experiência de amadurecimento.
Ao longo do caminho, Lyara conhece personagens, constrói amizades e enfrenta situações que contribuem para seu desenvolvimento. Cada encontro representa uma oportunidade de compreender melhor o mundo e a si mesma.
É uma premissa que me agrada especialmente porque utiliza uma característica muito poderosa dos videogames: a possibilidade de fazer o jogador participar ativamente da trajetória de um personagem.
Em um filme, acompanhamos alguém superar uma dificuldade. Em um jogo, precisamos encontrar uma maneira de superar aquela dificuldade junto com ele.
Essa diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a relação que construímos com determinadas histórias.
E quando um jogo consegue conectar seus desafios àquilo que a protagonista está sentindo, a experiência pode ganhar uma dimensão muito mais significativa.
Plataforma de precisão: quando cada movimento importa

Desenvolvido e publicado pela Bolha Game Studio, Lyara é um jogo brasileiro de plataforma 2D que aposta em desafios de precisão, exploração e resolução de quebra-cabeças.
A proposta dialoga com títulos como Celeste, Hollow Knight e Braid, jogos que, embora bastante diferentes entre si, demonstraram como mecânicas de plataforma podem ser utilizadas para criar experiências criativas e marcantes.
Em Lyara, os jogadores precisam dominar movimentos, calcular saltos, superar obstáculos e compreender as particularidades de cada ambiente.
O jogo promete uma dificuldade elevada, seguindo a tradição dos clássicos de plataforma que exigem atenção, reflexos e persistência.
Mas existe uma diferença importante entre um jogo simplesmente difícil e um jogo que utiliza a dificuldade de maneira inteligente.
Quando os desafios são bem construídos, cada erro pode ensinar alguma coisa. Você começa uma fase acreditando que determinado obstáculo é impossível, tenta diferentes abordagens e, depois de algumas tentativas, finalmente encontra a solução.
A sensação de satisfação não vem apenas de vencer. Ela vem de perceber que você aprendeu.
Esse é um dos aspectos que mais admiro em jogos como Celeste, e é justamente uma das características que tornam a proposta de Lyara tão interessante para mim.
Não se trata apenas de chegar ao final de uma fase, mas de compreender o caminho necessário para alcançar aquele objetivo.
E, dependendo de como a narrativa acompanha esse processo, cada conquista pode representar algo muito maior do que simplesmente avançar para o próximo cenário.
Os chakras e a jornada de autoconhecimento

Uma das características que mais chamam atenção em Lyara é a maneira como o jogo organiza seus diferentes mundos.
Cada ambiente está associado a um chakra, conceito ligado a centros de energia presentes em determinadas tradições espirituais orientais. Dentro da proposta do jogo, esses elementos são utilizados como parte da jornada emocional e de amadurecimento da protagonista.
Na prática, isso significa que cada mundo apresenta uma ambientação própria, novos obstáculos e mecânicas diferentes.
O jogador precisa se adaptar constantemente, aprendendo novas formas de superar os desafios e compreender as particularidades de cada região.
Essa estrutura permite que a evolução da jogabilidade acompanhe o desenvolvimento da história.
À medida que Lyara avança, novos cenários e desafios surgem, enquanto a narrativa apresenta respostas e também novos mistérios sobre sua jornada.
A proposta de equilibrar os chakras interiores da protagonista acrescenta uma dimensão simbólica à aventura, conectando o progresso físico pelos cenários ao processo de autoconhecimento.
É justamente essa relação entre mecânica e narrativa que considero tão interessante.
Um bom jogo de plataforma consegue nos desafiar. Mas um jogo de plataforma que utiliza seus obstáculos para representar emoções e conflitos pode conseguir algo ainda mais especial: fazer com que cada conquista tenha um significado próprio.
E essa é uma das razões pelas quais estou tão interessado em acompanhar a jornada de Lyara.
Um universo que muda conforme a protagonista evolui

Outro elemento importante da proposta é a variedade de ambientes.
Em vez de apresentar uma única fórmula de desafios do começo ao fim, Lyara procura introduzir novas mecânicas conforme o jogador avança pelos diferentes mundos.
Isso significa que uma habilidade ou estratégia utilizada em determinado cenário pode não ser suficiente para superar os obstáculos seguintes.
O jogador precisa observar, experimentar e desenvolver novas maneiras de lidar com as situações apresentadas.
Além dos desafios de precisão, o jogo incorpora quebra-cabeças que exigem raciocínio e compreensão das regras de cada ambiente.
Essa variedade é importante porque ajuda a transformar a jornada em um processo constante de descoberta.
Também existe uma preocupação em conectar esses ambientes à história da protagonista. Os diferentes mundos não funcionam apenas como mudanças de cenário, mas como partes de uma aventura que procura representar sentimentos, experiências e transformações pessoais.
Ao longo do caminho, novos personagens surgem e ajudam a ampliar nossa compreensão sobre a vida de Lyara.
As amizades construídas durante a jornada também fazem parte desse processo, mostrando que o amadurecimento não acontece necessariamente de maneira isolada.
Às vezes, encontrar alguém que nos ajude a enxergar uma situação de outra forma pode ser tão importante quanto superar um obstáculo por conta própria.
E essa mensagem combina bastante com a proposta emocional do jogo.
O carinho que tenho por Lyara também passa pelo desenvolvimento brasileiro

Existe outro motivo que torna esse lançamento especial para mim: Lyara é um jogo brasileiro.
Acompanho com muito interesse a evolução da cena independente nacional, principalmente quando encontro projetos que procuram construir uma identidade própria e contar histórias que vão além das fórmulas tradicionais.
Produzir um jogo independente envolve desafios enormes. Equipes pequenas precisam lidar com limitações de orçamento, tempo, divulgação e recursos, muitas vezes competindo pela atenção dos jogadores em um mercado que recebe novos lançamentos diariamente.
Por isso, quando encontro um projeto nacional com uma proposta artística e narrativa que desperta meu interesse, faço questão de conhecer melhor o trabalho de quem está por trás dele.
No caso de Lyara, esse carinho também passa pelas pessoas envolvidas em sua criação.
Mais do que um produto chegando à Steam, estamos falando de um projeto construído por desenvolvedores que decidiram transformar uma ideia em um jogo completo, enfrentando todas as dificuldades que fazem parte desse processo.
E existe algo muito bacana em perceber que desenvolvedores brasileiros também estão criando experiências capazes de conversar com sentimentos universais.
Não precisamos olhar apenas para grandes produções internacionais para encontrar histórias sobre amadurecimento, superação e autoconhecimento.
Essas histórias também estão sendo contadas aqui.
Por que estou tão empolgado com Lyara?
Talvez a resposta esteja justamente naquela sensação que descrevi no começo desta matéria.
Celeste me mostrou que um videogame pode ser muito mais do que uma forma de entretenimento. Pode ser uma experiência capaz de provocar reflexões, despertar sentimentos e até contribuir para mudanças importantes na maneira como enxergamos a vida.
Quando conheci Lyara, reconheci algo daquela mesma sensibilidade.
Não estou dizendo que os dois jogos contam a mesma história ou que provocarão as mesmas emoções. Cada obra possui sua própria identidade, e seria injusto esperar que Lyara simplesmente reproduzisse aquilo que senti jogando Celeste.
Na verdade, o que mais desejo é justamente descobrir o que Lyara tem de próprio para contar.
Quero conhecer melhor sua protagonista, compreender os significados de seus mundos e acompanhar a maneira como seus desafios se conectam à narrativa.
Também quero descobrir como a Bolha Game Studio conseguiu transformar temas tão pessoais em uma experiência interativa, na qual o jogador não apenas acompanha a história, mas participa de cada obstáculo enfrentado pela personagem.
É uma expectativa que nasce tanto do meu carinho pelos jogos de plataforma quanto da importância que determinadas histórias tiveram na minha vida.
E isso, por si só, já torna o lançamento especial.
Lyara já está disponível para Steam
O jogo é desenvolvido e publicado pela Bolha Game Studio e combina plataforma 2D de precisão, quebra-cabeças, diferentes mundos e uma narrativa voltada ao autoconhecimento.
Para quem gosta de experiências como Celeste, a proposta merece atenção, especialmente pela maneira como procura relacionar dificuldade, evolução da personagem e conflitos emocionais.
É claro que cada jogador terá sua própria relação com a aventura. Alguns poderão se interessar principalmente pelos desafios de plataforma. Outros talvez encontrem maior significado na história e nos personagens.
E essa é uma das coisas mais bonitas dos videogames: a mesma obra pode representar experiências completamente diferentes para pessoas diferentes.
No meu caso, Lyara já conquistou um espaço especial antes mesmo de eu conhecer toda a sua jornada.
Talvez porque eu saiba o quanto um jogo aparentemente simples pode significar na vida de alguém.
Talvez porque ainda carregue comigo tudo aquilo que Celeste representou.
Ou talvez porque, depois de tantos anos jogando videogame, eu continue procurando experiências que me façam sentir aquela mistura de curiosidade, emoção e vontade de descobrir o que existe depois do próximo obstáculo.
Seja qual for a resposta, estou muito feliz em ver um jogo brasileiro seguindo por esse caminho.
E espero que Lyara consiga tocar outras pessoas da mesma maneira que determinados jogos tocaram a minha vida.
Porque, no fim das contas, alguns videogames nos ensinam que superar uma fase pode ser muito mais do que chegar ao próximo cenário.
Às vezes, é também uma maneira de aprender a continuar.
