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Games brasileiros que só existiram no Master System

Mauro Junior 6 de setembro de 2026 11 minutes read

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De Mônica a Castelo Rá-Tim-Bum, o console da SEGA ganhou no Brasil uma biblioteca que nenhum outro país teve.

Quem teve um Master System no Brasil não teve exatamente o mesmo videogame que existiu no restante do mundo.

Por aqui, a história do console ganhou personagens que dificilmente apareceriam em qualquer catálogo internacional da SEGA. Mônica, Cebolinha, Chapolin Colorado, Geraldinho, Sapo Xulé, Pica-Pau, Priscila, Nino, Emília… todos acabaram virando personagens de videogame.

E isso aconteceu porque a TecToy fez algo muito interessante com o Master System: em vez de simplesmente vender o aparelho e seus jogos internacionais, começou a adaptar o catálogo para o público brasileiro.

Em alguns casos, jogos já existentes receberam novos gráficos, personagens e histórias. Em outros, foram desenvolvidos títulos próprios para aproveitar personagens que estavam presentes na televisão, nos quadrinhos e na infância de quem cresceu durante os anos 90.

O resultado é uma parte bastante peculiar da história dos videogames no Brasil.

Então coloque o cartucho, dê aquela soprada que absolutamente não era recomendada mas todo mundo fazia e venha comigo relembrar, em ordem de lançamento, games brasileiros que fizeram do nosso Master System um console diferente de qualquer outro.

Mônica no Castelo do Dragão (1991)

Se existe um jogo que ajuda a explicar a história brasileira do Master System, provavelmente é Mônica no Castelo do Dragão.

O título nasceu a partir de Wonder Boy in Monster Land, desenvolvido pela Westone. A TecToy modificou o jogo para colocar Mônica como protagonista e adaptar aquela aventura para o universo criado por Mauricio de Sousa.

Em vez do herói original, tínhamos a dentuça carregando seu inseparável Sansão enquanto explorava cenários, enfrentava inimigos e comprava equipamentos como espadas e armaduras.

A estrutura de Wonder Boy continuava ali, mas a troca funcionava justamente porque não parecia apenas uma mudança de sprite. Para uma criança brasileira entrando em uma locadora no começo dos anos 90, encontrar Mônica na capa de um jogo de Master System tinha um impacto completamente diferente.

O sucesso abriu caminho para a TecToy continuar apostando na localização de jogos com personagens conhecidos por aqui.

E ainda bem que funcionou, porque a história estava apenas começando.

Chapolim x Drácula: Um Duelo Assustador (1993)

Não contavam com a astúcia da TecToy.

Em 1993, foi a vez de Chapolin Colorado entrar no Master System em uma adaptação de Ghost House, jogo originalmente lançado pela SEGA.

O protagonista genérico do original deu lugar ao herói criado por Roberto Gómez Bolaños, que precisava encarar uma mansão infestada por Drácula, múmias e outras criaturas.

A jogabilidade preservava características de Ghost House, incluindo a exploração da mansão e a possibilidade de interagir com elementos dos cenários, mas a presença do Chapolin mudava completamente a personalidade da aventura para o público brasileiro.

Era uma combinação que provavelmente pareceria completamente aleatória em qualquer outro lugar do planeta.

No Brasil dos anos 90?

Fazia todo sentido.

Turma da Mônica em: O Resgate (1993)

Depois de Mônica no Castelo do Dragão, a parceria continuou com uma adaptação ainda mais ambiciosa.

Turma da Mônica em: O Resgate utiliza como base Wonder Boy III: The Dragon’s Trap, um dos grandes títulos do Master System.

No original, o protagonista se transforma em diferentes criaturas, cada uma oferecendo habilidades próprias. A solução encontrada para a versão brasileira foi excelente: substituir essas transformações por personagens da Turma da Mônica.

Com Mônica sequestrada pelo Capitão Feio, seus amigos partem para o resgate.

Assim, encontramos personagens como Cebolinha, Magali, Bidu, Chico Bento e Anjinho, utilizando características diferentes para alcançar partes anteriormente inacessíveis do cenário.

A adaptação combinou especialmente bem com a estrutura de The Dragon’s Trap e acabou se tornando um dos títulos brasileiros mais lembrados do Master System.

Era Wonder Boy, mas para muita criança brasileira dos anos 90 aquilo simplesmente era o jogo da Turma da Mônica.

Geraldinho (1994)

Antes de Los Três Amigos, Geraldão e tantos outros trabalhos de Glauco conquistarem seu espaço na cultura brasileira, um de seus personagens também chegou ao Master System.

Geraldinho, lançado em 1994, foi produzido a partir de Teddy Boy, jogo da SEGA.

A estrutura original foi preservada: o jogador percorre telas enfrentando criaturas enquanto tenta sobreviver ao ritmo cada vez mais complicado das fases.

Mas o protagonista agora era Geraldinho, personagem dos quadrinhos de Glauco.

Talvez não seja atualmente tão lembrado quanto Mônica ou Chapolin entre os jogos adaptados pela TecToy, mas representa muito bem aquele período em que personagens das revistas, quadrinhos e televisão brasileira podiam repentinamente aparecer dentro de um cartucho de Master System.

Sapo Xulé vs. Os Invasores do Brejo (1995)

E chegamos a um personagem que quem acompanha o Passa de Fase já sabe que mora em uma parte especial da minha memória gamer.

O Sapo Xulé ganhou três jogos para Master System em 1995.

O primeiro deles foi Sapo Xulé vs. Os Invasores do Brejo, adaptação de Psycho Fox.

O original já era um excelente jogo de plataforma da SEGA, com diferentes personagens, habilidades e caminhos pelas fases. A versão brasileira transportou essa estrutura para o universo do Sapo Xulé, colocando o personagem na missão de defender seu brejo.

O resultado combina muito bem com o visual colorido e cartunesco do jogo original.

E pensar que um personagem brasileiro inspirado em “O Sapo Não Lava o Pé” acabaria protagonizando uma trilogia no videogame da SEGA é uma daquelas histórias que ajudam a explicar por que o Master System brasileiro é tão peculiar.

Sapo Xulé: O Mestre do Kung Fu (1995)

No mesmo ano chegou Sapo Xulé: O Mestre do Kung Fu, dessa vez utilizando Kung Fu Kid como base.

E esse eu conheço muito bem.

Quando criança, lembro de encontrar a fita para alugar na locadora e levar para casa. Até hoje revisito o jogo de vez em quando justamente por aquela capacidade que alguns games têm de nos transportar imediatamente para outra época.

Aqui, o Sapo Xulé abandona a exploração de Psycho Fox e parte para a pancadaria.

O personagem atravessa fases enfrentando inimigos com chutes, saltos e ataques rápidos, herdando a estrutura de ação lateral de Kung Fu Kid.

É um jogo simples, rápido e com aquela dificuldade característica de muitos títulos daquela geração.

Para mim, porém, ele sempre será um daqueles cartuchos capazes de abrir uma pequena janela para uma época em que a maior preocupação era estudar, brincar, assistir desenho e decidir qual jogo levar da locadora.

Sapo Xulé: S.O.S. Lagoa Poluída (1995)

Se os dois primeiros jogos ainda permitiam alguma associação lógica entre personagem e gameplay, o terceiro resolveu abraçar completamente a criatividade.

Sapo Xulé: S.O.S. Lagoa Poluída foi criado a partir de Astro Warrior, shooter vertical da SEGA.

Sim.

Colocaram o Sapo Xulé em um jogo de nave.

A aventura apresenta o personagem tentando combater a poluição da lagoa enquanto enfrenta inimigos e coleta power-ups.

É provavelmente a transformação mais inesperada da trilogia, mas também representa perfeitamente aquela liberdade das adaptações brasileiras.

Precisávamos de uma explicação para colocar o Sapo Xulé pilotando uma nave em um shooter?

Em 1995, aparentemente não.

E estava tudo bem.

Férias Frustradas do Pica-Pau (1996)

Aqui temos uma mudança importante.

Férias Frustradas do Pica-Pau não nasceu simplesmente da substituição de personagens de outro jogo. O título foi desenvolvido pela TecToy especificamente para o Master System.

Na história, Pica-Pau quer aproveitar suas férias, mas obviamente nada poderia ser tão simples para o personagem.

A aventura leva o jogador por diferentes ambientes, incluindo praia, parque e zoológico, em uma estrutura tradicional de plataforma.

O jogo chama atenção principalmente pelo visual colorido e pelas animações, mostrando o quanto os desenvolvedores brasileiros já conheciam o hardware do Master System naquele estágio da vida do console.

Também não espere exatamente férias tranquilas.

A dificuldade deixa claro que quem estava de folga era o Pica-Pau.

Você não.

As Aventuras da TV Colosso (1996)

Se você cresceu assistindo à programação infantil da Globo nos anos 90, provavelmente não precisa de muita explicação sobre TV Colosso.

Priscila, Gilmar e companhia estavam por toda parte.

Naturalmente, chegaram também ao Master System.

As Aventuras da TV Colosso utiliza como base Asterix and the Secret Mission, substituindo o universo de Asterix pelos personagens do programa brasileiro.

A possibilidade de utilizar personagens com características diferentes ajudava a adaptação: enquanto um favorecia determinadas ações, outro apresentava vantagens próprias durante as fases.

É quase uma cápsula do tempo de 1996.

Um programa infantil brasileiro protagonizado por cachorros gigantes transformado em videogame por meio de uma adaptação de um jogo europeu baseado em uma história em quadrinhos francesa, rodando em um console japonês.

Globalização antes de alguém explicar para a gente o que era globalização.

Castelo Rá-Tim-Bum (1997)

Poucos programas infantis representam tão bem a televisão brasileira dos anos 90 quanto Castelo Rá-Tim-Bum.

E em 1997, Nino também chegou ao Master System.

Desenvolvido pela TecToy, o jogo coloca o personagem explorando diferentes partes do Castelo em uma aventura que mistura plataforma, exploração, labirintos e atividades inspiradas no programa da TV Cultura.

Personagens conhecidos também aparecem durante a aventura, incluindo Tíbio e Perônio.

O mais interessante é perceber quando esse jogo foi lançado.

Em 1997, PlayStation e Nintendo 64 já representavam uma nova geração de videogames. O Saturn estava no mercado e os gráficos 3D dominavam cada vez mais as conversas sobre o futuro.

Enquanto isso, no Brasil, a TecToy ainda estava lançando jogos inéditos para Master System.

Poucas coisas explicam melhor a relação completamente diferente que o console teve com nosso mercado.

Sítio do Picapau Amarelo (1997)

Também em 1997, outro gigante da cultura infantil brasileira ganhou sua aventura no console.

Sítio do Picapau Amarelo colocou personagens como Emília, Pedrinho e Narizinho em uma aventura envolvendo a temida Cuca.

O jogo combina plataforma com elementos de quebra-cabeça e propostas educativas, aproveitando o universo criado por Monteiro Lobato e popularizado para diferentes gerações por suas adaptações televisivas.

Assim como Castelo Rá-Tim-Bum, o título chegou quando o Master System já era considerado um videogame de outra geração em boa parte do mundo.

No Brasil, porém, ele continuava recebendo jogos.

E não apenas relançamentos antigos.

Jogos feitos para nós.

O Master System que só existiu no Brasil

É justamente isso que torna essa biblioteca tão interessante.

Podemos discutir qualidade, dificuldade, qual adaptação envelheceu melhor ou até qual desses cartuchos gostaríamos de encontrar hoje sem precisar vender um órgão.

Mas esses jogos representam algo maior.

A TecToy conseguiu transformar o Master System em um videogame genuinamente brasileiro.

Não porque o hardware tenha sido criado aqui, obviamente, mas porque sua biblioteca começou a refletir aquilo que as crianças brasileiras conheciam fora dos videogames.

A gente assistia Castelo Rá-Tim-Bum e depois encontrava Nino no Master. Lia Turma da Mônica e controlava seus personagens no videogame. Assistia Chapolin, TV Colosso e Pica-Pau, e todos eles também estavam nas prateleiras das locadoras.

Até o Sapo Xulé ganhou uma trilogia.

Talvez quem olhe essa biblioteca décadas depois enxergue apenas uma coleção curiosa de adaptações e jogos licenciados.

Para quem viveu aquela época, porém, existe outra coisa ali.

Existe a lembrança da locadora. Da televisão de tubo. Do cartucho que às vezes precisava ser colocado novamente porque não pegava de primeira. Da caixa enorme do Master System. De olhar aquelas capas na prateleira tentando decidir qual jogo levar para casa naquele fim de semana.

O Master System brasileiro teve uma história própria.

E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, ainda temos desenvolvedores criando novos jogos para ele.

Afinal, por aqui, parece que o Master System nunca recebeu muito bem a notícia de que sua geração havia acabado.

About the Author

Mauro Junior

Administrator

Criador de conteúdo e gamer desde a época das locadoras. Fundador do Passa de Fase, falando de games retrô, indies e tudo que marcou gerações. Meu jogo da vida é Chrono Trigger e Celeste. Cresci entre cartuchos, revistas e controles gastos. Aqui no Passa de Fase, falo de videogame com opinião, memória afetiva e paixão de quem viveu cada fase.

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