Estudos encontram benefícios cognitivos associados ao treinamento com videogames, mas não provam que sofrer com a tela do portátil no banco de trás do carro nos deixou mais inteligentes.
Quem teve um Game Boy provavelmente conhece uma batalha que não aparecia em nenhum cartucho: tentar jogar durante uma viagem de carro.
Para muitas crianças dos anos 90 na Europa e na América do Norte, e também para parte do público brasileiro nos anos seguintes, o portátil era uma ótima maneira de fazer aquelas viagens que pareciam durar uma eternidade passarem um pouco mais rápido.
Só que existiam pelo menos três chefões nessa aventura.
O primeiro eram as pilhas, capazes de acabar justamente quando você mais precisava delas. O segundo era sua mãe dizendo que você estava forçando a vista e precisava largar um pouco aquele videogame.
E havia o pior deles: a luz.
Bastava o carro mudar de posição, entrar uma sombra ou atravessar um túnel para começar aquela coreografia no banco traseiro. Inclina o Game Boy, vira o corpo, aproxima a tela, procura alguma iluminação e tenta descobrir o que estava acontecendo naquele pequeno LCD.
Tudo isso para enxergar uma tela de apenas 160 por 144 pixels e quatro tonalidades.
Décadas depois, existe uma pergunta interessante por trás dessa lembrança: todo aquele esforço para interpretar mundos inteiros em telas tão limitadas poderia ter treinado algumas capacidades do nosso cérebro?
O que os estudos realmente dizem
Existe pesquisa científica relacionando o treinamento com videogames a determinadas habilidades cognitivas.
Uma meta-análise publicada em 2023 reuniu 63 estudos, 118 investigações e 2.079 participantes e encontrou um efeito significativo do treinamento com videogames sobre a cognição. Entre as áreas nas quais os pesquisadores encontraram evidências de transferência estavam atenção e percepção, além de funções cognitivas de ordem superior.
Outros estudos sobre treinamento com jogos de ação também encontraram resultados relacionados ao processamento visual, atenção e capacidade visuoespacial.
Essa última envolve habilidades utilizadas para representar, transformar e lembrar informações espaciais. É justamente o tipo de capacidade que permite interpretar posições, distâncias e relações entre objetos.
Isso ajuda a entender por que videogames são estudados nesse contexto. Durante uma partida, precisamos reconhecer padrões, interpretar informações visuais, lembrar caminhos e reagir ao que acontece na tela.
Mas existe uma diferença importante entre isso e afirmar que jogar Game Boy dentro do carro tornou uma geração cognitivamente superior.
A ciência não permite dar esse salto.
Não foi a tela ruim que nos deixou mais inteligentes
Os estudos encontrados analisam os efeitos de diferentes tipos de treinamento com videogames. Eles não demonstram especificamente que jogar Game Boy em uma tela pequena, escura ou dentro de um carro produza benefícios cognitivos adicionais.
Também não existe consenso absoluto sobre até onde esses ganhos podem chegar.
Uma ampla meta-análise publicada no Psychological Bulletin, por exemplo, encontrou efeitos gerais pequenos ou nulos e não encontrou evidências suficientes para estabelecer uma relação causal entre jogar videogames e uma melhora ampla da capacidade cognitiva.
Ou seja, existe evidência de benefícios em determinadas habilidades e condições de treinamento, mas transformar isso em “quem jogou Game Boy no carro treinou mais o cérebro” seria ir além do que as pesquisas demonstram.
E talvez nem precisemos disso para tornar aquela experiência especial.
Quem viveu essa época sabe quanto esforço colocávamos para extrair um mundo inteiro de poucos pixels. Decorávamos caminhos, reconhecíamos personagens minúsculos e continuávamos jogando mesmo quando enxergar a tela parecia fazer parte da dificuldade.
A ciência pode continuar discutindo até onde os videogames conseguem melhorar nossas capacidades cognitivas.
Mas existe uma coisa que não precisa de estudo para quem passou por aquilo.
Jogar Game Boy no carro já era praticamente jogar no modo difícil.
