Durante minha passagem pela Gamescom 2026, tive a oportunidade de conhecer Dreamcards, um roguelike deckbuilder que aposta em uma proposta narrativa mais introspectiva e emocional para se destacar dentro do gênero.
No jogo, assumimos o papel de Self, um personagem recluso que é constantemente atormentado por seu próprio monstro interior — uma sombra que simboliza traumas reprimidos. A premissa se constrói a partir desse conflito: após fugir por tanto tempo, o protagonista decide enfrentar diretamente essa entidade em seus sonhos, revisitando memórias e lidando com feridas emocionais profundas. A tensão narrativa gira em torno de uma dúvida constante: ainda há tempo para retomar o controle ou o monstro já está prestes a dominar tudo?
A estrutura de gameplay acompanha essa dualidade. Durante o dia, o jogador constrói e ajusta seu baralho; à noite, enfrenta o monstro em batalhas que combinam estratégia, elementos de ocultismo e uma camada psicológica bastante evidente. A progressão se apoia na experimentação, com mais de 100 cartas únicas disponíveis e a possibilidade de combinar seis estratégias diferentes, criando variações significativas a cada nova campanha.
Outro diferencial está na manipulação do baralho não apenas entre partidas, mas também durante os confrontos, o que adiciona uma camada tática interessante. Além disso, o jogo incentiva a exploração de memórias e segredos dos personagens, reforçando o vínculo entre mecânica e narrativa. No centro de tudo está o confronto simbólico com o próprio trauma, elemento que guia tanto o enredo quanto os desafios.
O projeto é desenvolvido pela Soneka Games, um estúdio independente formado por sete desenvolvedores, todos ex-integrantes do laboratório de pesquisa e desenvolvimento de jogos do Departamento de Informática da PUC-Rio, o Icad Games. A equipe se reuniu com a proposta de criar experiências criativas e significativas, e Dreamcards marca esse primeiro passo.
A origem do jogo também chama atenção. O projeto nasceu como Trabalho de Conclusão de Curso de João Escarlate, um dos game designers e produtores da Soneka, durante sua graduação em Design. Ao longo do desenvolvimento, outros futuros membros do estúdio colaboraram ativamente, contribuindo para a evolução da ideia. Após a conclusão do TCC, o grupo decidiu expandir o projeto, fundando oficialmente a Soneka Games e transformando Dreamcards em um título completo em desenvolvimento.
Na prática, minha experiência com o jogo foi bastante positiva, ainda que o início tenha exigido um certo tempo de adaptação. A curva de aprendizado é um pouco mais complexa, e precisei de algumas partidas para começar a entender melhor a lógica e as mecânicas. Por outro lado, a arte chama atenção imediatamente — é um daqueles jogos que te conquista visualmente antes mesmo de dominar completamente o sistema.
Durante a gameplay, ficou claro para mim o potencial que Dreamcards tem de se tornar aquele tipo de jogo viciante, especialmente para quem já gosta de deckbuilders. A combinação entre estética marcante, proposta narrativa diferenciada e profundidade estratégica cria uma base promissora.
Para quem quiser conhecer mais, o jogo já possui página na Steam, onde é possível testar a demo e acompanhar o desenvolvimento. E, claro, fica o convite: vale a pena colocar na wishlist.





